terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Suor de sangue - Janaina Ramos

I
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"O demônio arde em vão implorando por clemência pelos seus pecados.
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- Livra-te de mim filho de Satanás. - grita o demônio.
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- Satanás!?!? - aquele infeliz era digno de pena, mas eu não sentia pena dele - Ah, miserável.
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O demônio continuava estendindo na minha frente, rastejava pelo chão ensanguentado, sem força, quase desfalecido, o punhal que cravei em seu peito resplandecia ao brilho da minha vingança. Aniquilei o demônio com as minhas mãos, deste ato salvei inúmeras vidas.
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- Volta para o inferno de onde nunca deveria ter saído. - empurro o punhal até o fundo, arranco seu coração e o esmago com os meus pés, queimo seu corpo, de suas cinzas descarrego na privada e dou descarga. O resto do demônio vira merda apodrecida.
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As trevas dessa cidade invadiu lares destruindo sentimentos e acabando com a civilização. A escuridão se tornou presente. Não enxergo nada e caio sem sentidos na lama de sangue.
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(Continua amanhã)

O estrangeiro - Arthur Dapieve

O estrangeiro
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Este ano minha mãe morreu. Não no ano passado, com certeza. Embora eu não seja um pied noir e nem tenha matado um arábe, estou condenado à morte, como todos os Mersaults que somos. Isso esclarece tudo, esta coluna inclusive. A última coluna do ano passado se chamou "Um balanço emocional para 1994", um balanço que abarcava apenas e tão-somente as morte de Ayrton Senna e Kurt Cobain e a conquista do tetracampeonato.
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Todo o resto era supérfluo, percalços de um ano como qualquer outro. Nos lembraremos de 1994 como o ano em que morreu o Senna, o ano em que Cobain deu um tiro nos cornos, o ano que Roberto Baggio perdeu um pênalti e assim nós ganhamos a Copa do Mundo pela quarta vez. Por nenhuma outra razão. Era um balanço pessoal, decerto. O deste ano é ainda mais pessoal. Não há, para mim, outro assunto possível. Este 1995 não será, na minha cabeça, o ano em que eu lancei o meu primeiro livro, o ano em que o Batafogo ganhou o seu primeiro campeonato brasileiro, o ano em que aconteceram, antes e depois de 22 de agosto, outras coisas boas e outras tantas coisas más, para mim, urbi et orbi. Não. Será sempre o ano em que minha mãe morreu. E o leitor com isso? Bem, se ele me lê é graças a ela, à sua luta centavo a centavo de Mallet Soares, de Oxford - o curso de inglês, não a universidade inglesa, óbvio - e de PUC. E suponho que ele tenha tido ou tenha mãe, suponho que ou ele saiba ou venha a saber do que estou escrevendo, embora a escrita não redima, não cure, não exorcize, não amenize chongas. Sim, todas as mães, mesmo as mais felizes, morrem um dia.
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Vamos deixar logo uma coisa bem clara: eu não sou boiola. Já escuto as risotas pelas, hum, costas. "Hum, ele era ligadão na mãe, humm..." ou "Hum, já vi esse filme antes, Psicose." Minha relação com minha mãe não se caracterizava por essa idolatria que certos gays tem por suas mães - e eles devem ter lá os motivos deles. Para dizer a verdade vivíamos meio às turras, distantes demais, fechados demais para nos entendermos realmente bem. Mas esta coluna também não é sobre arrependimento ou sentimento de culpa. Arrependimento de não ter dito ou feito isso ou aquilo, a palavra ou o gesto que depois diminuíram nossa dor. Esse arrependimento existe, sim, porém não se relaciona apenas aos mortos ou aos entes queridos. De qualquer forma, nada, palavra ou gesto, diminui a dor. Mesmo que você se prepare psicologicamente durante uma agonia de cinquenta e tantos dias em CTIs, mesmo que você quase se convença de que é preferível a morte, nada diminui a dor. É uuma porrada.
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É uma porrada tão grande que não dá pra ficar indiferente como o Mersault do romance. O estrangeiro do franco-argelino Albert Camus. No primeiro parágrafo, curto, inesquecível, Mersault recebe um telegrama: "Sua mãe faleceu. Enterro: amanhã. Sentimos pêsames." E pouco se importa, ou ao menos assim lhe parece num primeiro momento. A morte o reunirá à mãe. "Pela primeira vez em muito tempo pensei em mamãe", se surpreende na cela, à espera do cumprimento da sentença.
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Entretanto, pior que o arrependimento, o sentimento de culpa, a dor, a porrada, não necessariamente nessa ordem borgeana, é a sensação devastadora de solidão, solidão diante do mundo, aliás, uma sensação bem existencialista, mersault-camusiana. É como se, antes do acerto de contas com o Criador, tivéssemos de acertar contas com a nossa Criadora. A morte da mãe deve ser, com a possível exceção da morte de um filho (tóc, tóc, tóc), a coisa mais parecida com a própria morte que um ser humano pode experimentar em vida. É uma ponte que se queima. Estarei sendo piegas? Devo estar. Azar.
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(Abro aqui um parênteses que nada e tudo tem a ver com o resto desta coluna. Durante muito tempo, fugi do "eu" - e mesmo do sujeito "eu" oculto - como o diabo da cruz. Tinha vergonha de escrever "eu acho isso", "acredito naquilo", quem se importa. Até me tocar que essa timidez era meio desonestidade, meio falsa modéstia. Que digitar "eu" não significa, não necessariamente, entronizar o próprio umbigo. E que mesmo o umbigo pode ser socializado, pois todos temos um, assim como todos temos/tivemos mãe. Não dava mais para fingir que eu não estava aqui escrevendo e que alguém, nem que fosse eu mesmo, atrás de letras comidas e concordâncias erradas, estava aí lendo. Ninguém escreve para não ser lido, ninguém lê achando que o autor nasceu numa chocadeira.)
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Sim, a solidão. É estranho imaginar que não há mais ninguém na face da Terra que esteja se preocupando se você está bem agasalhado ou se está se alimentando decentemente, isso para ficar nas coisas mais banais. É não poder nem dizer aquela frase-shazam! para os momentos em que o computador deu tilt ou você descobre um revival do personagem de Depois de horas: "Eu quero minha mãe!" Vais ficar querendo.
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A gente aprende muito sobre a Humanidade nessa hora da morte também. Algumas pessoas, a maioria, felizmente, nos surpreendem favoravelmente. Ganhei solidariedade e carinho de onde pouco esperava, amigos, mãe de amigos, leitores desconhecidos. A todos estes, muito, muito obrigado. Outros, minoria, me falharam miseravelmente. A estes, não consigo perdoar, não consigo dar a outra face. E ainda tenho de estancar o sangue italiano a clamar por vendetta.
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Estranho perceber que morta, dura e fria em cima da cama, minha mãe me deu uma derradeira lição de vida. Parafraseando um personagem de O caso Morel, de Rubem Fonseca, a morte da minha mãe me ensinou duas coisas: eu estou vivo; e isso não vai durar muito tempo.
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Feliz 1996, apesar de mim.
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Arthur Dapieve

O DESESPERO DA VELHA - Charles Baudelaire

O DESESPERO DA VELHA
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A VELHINHA encarquilhada sentiu-se muito alegre ao ver aquela encantadora criança a quem todos faziam festa, a quem toda a gente procurava agradar; aquele belo ser, tão frágil quanto ela e, também como a velhinha, sem dentes e sem cabelos.
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E aproximou-se dele, com risinhos e maneiras carinhosas.
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Mas o bebê, espantado, se debatia sob as carícias da boa mulher descrépita, e enchia a casa com os seus gritos.
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Então a infeliz retirou-se para a sua solidão eterna, e pôs-se a chorar a um canto:
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- Ah! para nós, desgraçadas velhas, passou a idade de agradar, até aos inocentes; e causamos horror às criancinhas que desejamos amar!
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Charles Baudelaire

O ESTRANGEIRO - Charles Baudelaire

O ESTRANGEIRO
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A QUEM MAIS AMAS, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?
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- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
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- Teus amigos.
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- Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.
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- Tua pátria?
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- Ignoro em que latitude está situada.
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- A beleza?
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- Gostaria de amá-la, deusa e imortal.
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- O ouro?
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- Detesto-o como detestai a Deus.
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- Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?
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- Amo as nuvens ... as nuvens que passam ... longe ... lá muito longe ... as maravilhosas nuvens!
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Charles Baudelaire

AO LEITOR - Charles Baudelaire

AO LEITOR
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A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso espírito e o corpo viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.
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Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada.
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.
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Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade então se evola
Por obra deste sábio que age sem ser visto.
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É o Diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.
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Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.
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Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.
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Se o veneno, a paixão, o estrupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos fixos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
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Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ulutantes e às vísceras feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
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Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
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É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!
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Charles Baudelaire

domingo, 29 de novembro de 2009

Minhas bunda - Mario Prata

Minhas bunda
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A parte carnosa do corpo formada pelas nádegas.
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A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasileira é a língua? Errado. É a bunda.
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Na americana, temos seios, úberes, verdadeiras tetas que mal cabem nas páginas duplas. Na nossa, temos bundas. Bundinhas de penugem loira, bundinhas de contorno marrom, até bundinhas cor-de-rosa.
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Americano não gosta de bunda? Eu diria que americano não conhece a bunda. Aliás, no mundo inteiro, não existem bumbuns como os nossos, ou melhor, como as nossas. A bunda é um produto interno e bruto tipicamente brasileiro. Às vezes, a revista americana faz edições especiais sobre seios. Aqui, fazemos verdadeiros compêndios sobre (e sob) bundinhas. Narcisamente, o brasileiro adora a própria bunda.
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Mas de onde veio a nossa bunda? Não das alvas portuguesas, muito menos das esparramadas italianas e, menos ainda, das desbundadas japonesas. Muito menos das amassadas índias. Sempre me intrigou esta tanajúrica pergunta. Quem arrebitou com pincel de ouro, com formão de prata, a bundinha brasileira?
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Tinha essa dúvida até conhecer Cabo Verde, um país de dez vulcânicas ilhas na costa oeste da África. Quase fora do mapa. Foi lá que tudo começou.
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O país tem, atualmente, mais ou menos, 300 mil bundas ambulantemente espalhadas pelo arquipelágo. Bundas livres de Portugal desde 1975. E a bunda brasileira, antes de chegar ali, passou por lá, vindo do continente africano. Ou seja, foi lá que inventaram a fórmula, o contorno quase lúdico, o molde mais que esteticamente perfeito. A bunda politicamente correta. Tenho certeza dessa afirmação e vou tentar provar.
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Foi em Cabo Verde que surgiram as primeiras mulatas. Apesar de a palavra mutala ter origem espanhola, o conteúdo foi uma criação dos ingleses, holandeses e dos franceses que por lá passavam desde o começo do século XVI, com seus navios negreiros trazendo escravos para o Brasil. Lá era o point no meio do Atlântico. E lá os brancos deixaram o sêmen (do latim semen, que significa semente) para a fabricação das mulatas com suas respectivas bundas. Gostavam tanto das cabo-verdianas que Sir Francis Drake, pirata-mor daqueles tempos, chegou até a saquear o país em 1590 a mando da tal Companhia das Índias. O saque durou sete anos e milhares e milhares de sementes foram im(plantadas). Tinham sacado a bunda.
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Esta mistura deu a cor atual das nativas. Não são negras como as vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem elas. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França.
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Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tomé não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil).
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Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde, justa. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões, em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado:
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- Vem, vem, lembra daquela bunda?
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- Estava sonhando com ela.
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- Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate!
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E lá fomos nós dois para a boate. Não só a "nossa" bunda de verde (agora num fulgurante amarelo) dançava, mas uma infinidade delas. Que espetáculo.
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Só que, no princípio, era o verbo e não a carne e, naquele tempo, na época do tráfico dos escravos, quando surgia a bunda no meio do Atlântico, qual ilha vulcânica, a bunda ainda não se chamava bunda. Como aliás, até hoje em Portugal não se chama. Bunda só no brasil. Em Portugal a bunda é um cu.
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Mas foi na mesma África que fomos buscar a sonoríssima e mais do que adequada palavra bunda. Diz a lenda que a origem seria das danças dos africanos. Ficavam as mulheres dançando no meio e o crioléu em volta batendo tambor e fazendo som com a boca: bun-da!, bun-da! Mas isso é lenda. Na verdade, a palavra veio da língua quimbundo (kimbundu), da palavra bunda (mbunda, tubundas, elebunda?), lá para os lados de Angola, local onde viviam os bantos, raça negra sul-africana à qual pertenciam, entre outros, os negros escravos chamados no Brasil angolas, cabindas, benguelas, congos, moçambiques.
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Nós, brasileiros e cabo-verdianos, nascemos com a bunda virada para a lua.
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Mario Prata

sábado, 28 de novembro de 2009

Homem que é homem - Luis Fernando Verissimo

Homem que é homem
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Homem que é Homem não usa camiseta sem manga, a não ser para jogar basquete. Homem que é Homem não gosta de canapés, de cebolinhas em conserva ou de qualquer coisa que leve menos de 30 segundos para mastigar e engolir. Homem que é Homem não come suflê. Homem que é Homem - de agora em diante chamado HQEH - não deixa sua mulher mostrar a bunda para ninguém, nem em baile de carnaval. HQEH não mostra a sua bunda para ninguém. Só no vestiário, para outros homens, e assim mesmo, se olhar por mais de 30 segundos, dá briga.
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HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco Zeffirelli quando a mulher insiste muito, e passo todo o tempo tentando ver as horas no escuro. HQEH não gosta de musical, filme com a Jil Clayburgh ou do Ingmar Bergman. Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles Bronson. Diz que ator mesmo era o Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o Clint Eastwood, é tudo veado.
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HQEH não vai mais a teatro porque também não gosta que mostrem a bunda à sua mulher. Se você quer um HQEH no momento mais baixo de sua vida, precisa vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o porteiro é veado e que se enxergar mais alguém de malha justa, mata.
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E o HQEH tem razão. Confesse, você está com ele. Você não quer que pensem que você é um primitivo, um retrógado e um machista, mas lá no fundo você torce pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo o que ele diz. Quando ele conta tudo o que vai fazer com a Feiticeira no dia em que a pegar, você sacode a cabeça e reflete sobre o componente de misoginia patalógica inerente à jactância sexual do homem latino. Depois começa a passar no que faria com a Feiticeira se a pegasse. Existe um HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado sob camadas de civilização, de falsa sofisticação, de propaganda feminina e de acomodação. Sim, de acomodação. Quantas vezes, atirado na frente de um aparelho de TV vendo a novela das 8 - uma história invariavelmente de humilhação, renúncia e superação femininas -, você não se perguntou o que estava fazendo que não dava um salto, vencia a resistência da família a pontapés e procurava uma reprise de Manix em outro canal? HQEH só vê futebol na TV. Bebendo cerveja. E nada de cebolinhas em conserva! HQEH arrota e não pede desculpas.
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Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça este teste. Leia esta série de situações. Estude-as, pense, e depois decida como você reagiria em cada situação. A resposta dirá o seu coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem precisa responder: você não é HQEH. HQEH não pensa muito!
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Situação 1
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Você está num restaurante com nome francês. O cardápio é todo escrito em francês. Só o preço está em reais. Muitos reais. Você pergunta o que significa o nome de um determinado prato ao maítre. Você tem certeza que o maítre está se esforçando para não rir da sua pronúncia. O maítre levará mais tempo para descrever o prato do que você para comê-lo, pois o que vem é uma pasta vagamente marinha em cima de uma torrada do tamanho aproximado de uma moeda de um real, embora custe mais de cem. Você come de um golpe só, pensando no que os operários são obrigados a comer. Com inveja. Sua acompanhante pergunta qual é o gosto e você responde que não deu tempo para saber. O prato principal vem trocado. Você tem certeza que pediu um "Boeuf à quelque chose" e o que vem é uma fatia de pato sem qualquer acompanhamento. Só. Bem que você tinha notado o nome: "Canard melancolique." Você a princípio sente pena do prato, pela sua solidão, mas muda de idéia quando tenta cortá-lo. Ele é um duro, pode aguentar. Quando vem a conta, você nota que cobraram pelo pato e pelo "boeuf" que não veio. Você: a) paga assim mesmo para não dar à sua acompanhante a impressão de que se preocupa com coisas vulgares como o dinheiro, ainda mais o brasileiro; b) chama discretamente o maítre e indica o erro, sorrindo para dar a entender que, "Merde, alors", estas coisas acontecem; ou c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho contra a parede e, segurando o gargalo, grita: "Eu quero o gerente e é melhor ele vir sozinho!"
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Situação 2
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Você foi convencido pela sua mulher, namorada ou amiga - se bem que HQEH não tem "amigas", quem tem "amigas" é veado - a entrar para um curso de Sensitivação Oriental. Você reluta em vestir a malha preta, mas acaba sucumbindo. O curso é dado por um japonês, provavelmente veado. Todos sentam num círculo em volta do japonês, na posição de lótus. Menos você, que, como está um pouco fora de forma, só pode sentar na posição do arbusto despencado pelo vento. Durante 15 minutos todos devem fechar os olhos, jantar as pontas dos dedos e fazer "rom", até que se integrem na Grande Corrente Universal que vem do Tibete, passa pelas cidades sagradas da Índia e do Oriente Médio e, estranhamente, bem em cima do prédio do japonês, antes de voltar para o Oriente. Uma vez atingido este estágio, todos devem virar para a pessoa ao seu lado e estudar seu rosto com as pontas dos dedos. Não se surpreenda se o japonês chegar por trás e puxar as suas orelhas com força para lembrá-lo da dualidade de todas as coisas. Durante o "rom" você faz força, mas não consegue se integrar na grande corrente universal, embora comece a sentir uma sensação diferente que depois revela-se ser câimbra. Você: a) finge que atingiu a integração para não cortar a onda de ninguém; b) finge que não entendeu bem as instruções, engatinha fazendo "rom" até o lado daquela grande loura e, na hora de tocar o seu rosto, erra o alvo e agarra os seios, recusando-se a soltá-los mesmo que o japonês quase arranque as suas orelhas; c) diz que não sentiu nada, que não vai garantir adiante com aquela bobagem, ainda mais de malha preta, e que é tudo coisa de veado.
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Situação 3
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Você está numa daquelas reuniões em que há lugares de sobre para sentar, mas todo mundo senta no chão. Você não quis ser diferente, se atirou num almofadão colorido e tarde demais descobriu que era a dona da casa. Sua mulher ou namorada está tendo uma conversa confidencial, de mãos dadas, com uma moça que é a cara do Charlton Heston, só que de bigode. O jantar é à americana e você não tem mais um joelho para colocar o seu corpo de vinho enquando usa os outros dois para equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato, provavelmente o mesmo do restaurante francês, só que algumas semanas mais velho. Aí o cabeleiro de cabelo mechado ao seu lado oferece:
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- Se quiser usar o meu...
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- O seu...?
* - Joelho.
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- Ah...
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- Ele está desocupado.
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- Mas eu não o conheço.
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- Eu apresento. Este é o meu joelho.
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- Não. Eu digo, você...
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Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que se eu estivesse oferecendo a perna toda você ia pedir referências. Ti-au.
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Você: a) resolve entrar no espírito da festa e começa a tirar as calças; b) leva seu copo de vinho para um canto e fica, entre divertido e irônico, observando aquele curioso painel humano e organizando um pensamento sobre estas sociedades tropicais, que passam da barbárie para a decadência sem a etapa intermediária da civilização; ou c) pega sua mulher ou namorada e dá o fora, não sem antes derrubar o Charlton Heston com um soco.
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Se você escolheu a resposta a para todas as situações, não é um HQEH. Se você escolheu a resposta b, não é um HQEH. E se você escolheu a resposta c, também não é um HQEH. Um HQEH acha que teste é coisa de veado.
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Este país foi feito por Homens que eram Homens. Os desbravadores do nosso interior bravio não tinham nem jeans, quanto mais do Pierre Cardin. O que seria deste país se Dom Pedro I tivesse se atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro, fazendo massagem facial e cortando o cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em vez de "Independência ou Morte", "Independência ou Alternativa Viável, Levando em Consideração Todas as Variáveis? Você pode imaginar o Rui Barbosa de sunga de crochê? O José do Patrocínio de colant? O Tiradentes de kaftan e brinco numa orelha só? Homens que eram Homens eram os bandeirantes. Como se sabe, antes de partir numa expedição, os bandeirantes subiam num morro em São Paulo e abriam a braguilha. Esperavam até ter uma ereção e depois seguiam na direção que o pau apontasse. Profissão para um HQEH é motorista de caminhão. Daqueles que, depois de comer um mocotô com duas Malzibier, dormem na estrada e, se sentem falta de mulher, ligam o motor e trepam com o radiador. No futebol HQEH é beque central, cabeça-de-área ou centroavante. Meio-de-campo é coisa de veado. Mulher do amigo de Homem que é Homem. HQEH não tem amizade colorida, que é a sacanagem por outros meios. HQEH não tem um relacionamento adulto, de confiança mútua, cada um respeitando a liberdade do outro, numa transa, assim, extraconjugal mas assumida, entende? Que isso é papo de mulher pra dar pra todo mundo. HQEH acha que movimento gay é coisa de veado.
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HQEH nunca vai a vernissage.
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HQEH não está lendo a Marguerite Yourcenar, não leu a Marguerite Yourcenar e não vai ler a Marguerite Yourcenar.
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HQEH diz que não tem preconceito mas que se um dia estivesse numa mesma sala com todas as cantoras da MPB, não desencostaria da parede.
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Coisas que você jamais encontrará em um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de mímica.
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Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: batom neutro para lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, o telefone do Gabeira, entradas para um espetáculo de música.
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Coisas que você jamais deve dizer a um HQEH: "Ton sur ton", "Vamos ao balé?", "Prove estas cebolinhas".
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Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH dizer: "Assumir", "Amei", "Minha porção mulher", "Acho que o bordeau fica melhor no sofá e a ráfia em cima do puf".
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Não convide para a mesma mesa: um HQEH e o Silvinho.
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HQEH acha que ainda há tempo de salvar o Brasil e já conseguiu a adesão de todos os Homens que são Homens que restam no país para uma campanha de regeneração do macho brasileiro. Os quatro só não tem se reunido muito seguidamente porque pode parecer coisa de veado.
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Luis Fernando Verissimo

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Motivo da ausência

Meus amigos do blog, peço desculpas pela minha ausência no blog. Informo que até o final dessa semana estarei de volta postando novamente todos os dias. Como é fim de semestre da faculdade por conta dos inúmeros trabalhos e provas não tive tempo livre para dedicar-me ao blog como sempre, felizmente essa é a ultima semana de trabalhos e a partir da semana que vem estarei livre para o blog. Aguardem novas novidades.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sobre o amor - Ferreira Gullar

Sobre o amor
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Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse - eu te amo -, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refleria sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.
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Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical - falo do amor-paixão - e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.
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O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, antiburguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem atraídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los, até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções - e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.
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Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério - o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz - e volta ao bife com fritas.
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Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precaridade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não suporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.
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A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral, quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criando, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto se foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.
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Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda-roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tudo impregnado de ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e que ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar-se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.
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E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém mera na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!...
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Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.
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Ferreira Gullar

domingo, 8 de novembro de 2009

Por que sonhas, Minas? - Roberto Drummond

Por que sonhas, Minas?
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Minas Gerais: há sempre uma procissão passando, um sino tocando nas igrejas e nos corações, e uma conspiração em curso.
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Ah, Minas Gerais: de onde vem esse teu gosto de conspirar?
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De onde vem essa tua permanente, clandestina, diária, camuflada, subversiva inconfidência?
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Vem dos cristãos novos que se asilaram em tuas cidades e aportuguesaram os nomes suspeitos?
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Vem dos negros que fizeram de ti a África-mãe?
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E essa tua mania, Minas Gerais, de ser altaneira, de não ficar de joelhos, a não ser diante de Deus e dos teus santos de fé, e, ao mesmo tempo, ficar olhando para o chão, para os lados, de nunca encarar o teu interlocutor ou inquisidor, de onde vem seu jeito simulado, Minas Gerais?
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Por que tua coragem, de dar um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair, vem sempre travestida, disfarçada?
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Por que, Minas Gerais?
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Amo em ti, Minas Gerais, não apenas essa rebelião que carregas no peito como um vulcão clandestino, amo em ti o culto dos sonhos impossíveis.
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A liberdade era a amante mais desejada, mais sonhada de Tiradentes, era seu sonho impossível - e, por ele, Tiradentes morreu.
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Teu filho Santos Dumont deu asas ao impossível sonho humano de voar.
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E antes de Santos Dumont, o que foi o Aleijadinho, senão um mágico que transformava em realidade impossível sonhos em pedra-sabão?
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Minas Gerais: Juscelino plantou uma flor de concreto, a que deu o nome de Brasília, no cerrado. Era também a realização do impossível. E teu filho e rei, Pelé, nascido em Três Corações, escolhia os mais tortuosos e difícies caminhos para o gol, e sempre perseguiu o gol impossível, o único que não conseguiu realizar: o de surpreender o goleiro com um chute de longa distância.
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Minas Gerais: amo em ti a contradição.
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És barroca em Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina, Congonhas e Mariana, e moderna na Pampulha.
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Aqui, tu acendes o fogo, incendeias os corações: ali tu és, Minas Gerais, a água na fervura, a água apagando o fogo.
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Tu és senão e cidade, és o passado e o presente, és o Rio Doce e rios amargos, trágicos, és um casarão com 38 janelas e és uma casa moderna e ensolarada.
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Por que sonhas, Minas Gerais?
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E por que, Minas Gerais, quando sorris, quando está alegre, sempre acabas punindo tua própria alegria, como se ela, como teus sonhos de liberdade, te fosse proibida?
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Por que sempre estás pensando que comete um grave pecado, Minas Gerais?
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Por que teus filhos rezam mesmo quando são ateus?
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Por que, Minas Gerais, por quê?
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Roberto Drummond

sábado, 7 de novembro de 2009

Calcinhas secretas - Ignácio de Loyola Brandão

Calcinhas secretas
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Caminhando pelas calçadas congestionadas por camelôs que pagam propinas aos vereadores e, portanto, estão autorizados a montar suas barracas, ele hesitava diante da quantidade de bancas vendendo calcinhas e sutiãs. Desde que a Tiazinha começara a ter sucesso, as bancas exibiam modelos os mais diferentes, procurando excitar as mulheres na conquista dos amados. Percebeu que parte dos compradores eram homens e ficou na dúvida. Para eles mesmos ou para as mulheres? Parou diante de uma nordestina de rosto marcado por sulcos profundos e escolheu uma calcinha vermelha, uma preta aberta na frente e duas de renda. "Se levar meia dúzia, ganha uma de brinde", disse a vendedora, com os olhos iluminados pela esperança. Como na feira, pensou ele. Quem compra quatro pastéis leva um de brinde. Por toda parte, promoções para segurar freguês.
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Em lugar de calcinhas, pediu dois sutiãs e a vendedora mostrou-se agradecida. "Tomara que façam sucesso, que ela goste e o senhor volte." Ela goste! A vendedora não podia, nem de longe, prever as intenções dele. Era uma idéia que não tinha ocorrido de repente, ali, diante do mar colorido de peças íntimas. Foi almoçar no Ponto Chic, tomou dois chopinhos, um antes do Bauru, outro depois, consultou o relógio e seguiu para o cinema. Já havia uma fila, Med Gibson tem um fã-clube no centro da cidade. A sala estava fresca. Escolheu uma fileira central, espectadores vieram sentar-se perto, ele trocou de lugar. Foi mudando até localizar-se em um canto deserto.
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Vibrou com o Mel Gibson distribuindo porradas e tiros. Decidiu abrir o pacote e, no escuro, não soube qual das calcinhas estava sendo retirada. Não importava. Deixou a peça pendurada no braço das poltronas, pensou melhor, apanhou um sutiã, jogou no chão e mudou de lugar. Era mais completa a ação. Instalou-se num ponto estratégico e ficou à espera. O filme terminou, as luzes acenderam-se, as pessoas começaram a sair. Suspense. Será que ninguém veria as calcinhas? Uma mulher bateu os olhos, virou-se para o companheiro, apontou. Os dois gargalharam: "Aqui foi quente. Aqui, sim, passou uma máquina mortífera." Sentaram-se, espantados e curiosos, para saborear reações. Um senhor deu com a calcinha, reprovou com um gesto de cabeça. Não demorou para que se formasse um grupo que ria, comentava e imaginava o que se teria passado no escuro da sala. Alguém descobriu o sutiã no chão, os murmúrios cresceram. O mistério aumentou.
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Um policial surgiu para ver o que acontecia. Chamou o lanterninha, um velho manco. O homem contemplou as peças rendadas e ficou parado, sem decidir o que fazer. Não teve coragem de pegar as peças. Sabe-se lá o que tinha acontecido. Disse: "O faxineiro cuida disso." O seu rosto mostrava assombro e alegria. Algo de diferente acontecia na mesmice das sessões. Seu trabalho era quase inútil, ninguém mais precisava de um orientador no escuro. Permanecia no posto pela amizade do exibidor, com quem começaria trinta anos atrás. Sempre de lanterna na mão. Devia ser o último de uma categoria em extinção. As condições de trabalho tinham piorado tanto, que ele era obrigado a comprar do próprio bolso as pilhas para a lanterna. O que fazia com alegria, uma boa luz era o seu orgulho.
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O policial ficou exasperado: "Vejam que imortalidades se passam num cinema. Se eu pegasse o elemento! Chamem o gerente." O que podia fazer o gerente? Suas atribuições não eram no escuro da sala. Situação para o lanterninha: "Eu? Quer dizer que tenho de passar a sessão inteira varrendo a sala com a lanterna? Vai ser uma bronca só. Além do mais, gastaria dez pilhas por semana. Isso é com a policia, que fica assistindo a filme de graça." O policial irritou-se: "Isso não pode ficar assim." E o gerente: "O que vamos fazer?"
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Calcinhas secretas II
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A nova sessão começou, o gerente voltou à sua sala, o lanterninha e o policial passaram vinte minutos rodando pelos corredores, aproximando-se dos casais. Postavam-se diante deles, ostensivamente; o lanterninha iluminava-os, tentando surpreendê-los. O que provocou protestou de um homem, que se levantou, interpelando-os duramente. Com medo, o lanterninha retirou-se e o policial pareceu desistir. O homem que tinha levado o pacote de calcinhas esperou dez minutos, rondou à procura de outro lugar estratégico, repetiu a operação, deixando a calcinha à vista. Mudou de lugar e outra vez colocou pistas falsas. Aguardou.
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No intervalo, as pessoas fizeram grupinhos diante das calcinhas espalhadas e logo gerente, lanterninha, policial, faxineira e dois funcionários do cinema correram, nervosos: "O que está acontecendo? Se fosse uma sala de quinta, que exibisse pornôs, eu entenderia. Mas esse é o último cinema do centro que conserva sua dignidade." O gerente colocou os dedos no nariz do policial: "Resolva o assunto. O senhor só assiste aos filmes numa boa, come cachorro-quente de graça, dorme lá atrás em cada sessão."
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O policial riu: "Pensa que é meu chefe?" Deu as costas e foi ao hall, encostou-se no balcão da antiga bombonnière, pediu um cachorro-quente completo. A mulher reclamou: "Um só por dia, por favor." Ele tinha vendido bombons e chocolates, balas e dropes, mas tivera de mandar de ramo; escolheu sanduíches rápidos e baratos. "O que está acontecendo lá dentro? O gerente ficou passado." O policial riu: "O pessoal anda mandando brasa dentro da sala."
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O homem que tinha levado as calcinhas contemplou, deliciado, o alvoroço, desfrutou a perplexidade e imaginou a curiosidade de cada um. Teriam assunto para os escritórios, os clientes, o jantar em casa. Pena que não tivesse jornalista na platéia. Que boa idéia! Por que não telefonar para alguns? Chamar o Merten, o Zanin Oricchio, o Ignácio de Araújo, o Inimá Simões. O homem das calcinhas, diga-se como esclarecimento necessário, adorava cinema, lia colunas, recortava críticas. Quem sabe o Inimá escrevesse um livro: O erotismo nas salas?
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No dia seguinte, o homem das calcinhas mudou de cinema e refez a operação, com sucesso. Foi repetindo a artimanha, percebendo gerente cada vez mais intrigados. Deliciados, remuniciava-se na banca da nordestina de rosto marcado, tinha simpatizado com a mulher. Ela, no entanto, não entendia por que aquele homem comprava tantas calcinhas e sutiãs. Seria um revendedor? Ou eram para uso próprio? Que tipo de uso? Quem era esse homem? Um tarado?
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Esgotados os cinemas do centro, ele foi para o shopping. Os resultados foram melhores. No primeiro dia, deu a maior repercussão. Um pai ia sentar-se com as filhas, percebeu a calcinha no chão. Chamou o gerente, chamou todo mundo, fez escândalo, chamou o administrador do shopping, gritou que ia processar, retirou-se empurrando as jovens que riam, excitadas. E o homem das calcinhas repetiu a operação na sala 2, sem tanto estardalhaço, mas, de qualquer maneira, provocando igual assombro. O que se notava era a decepção das pessoas que gostariam de ter visto o acontecido. Numa segunda sessão, ele observou que quase ninguém prestava atenção no filme, as pessoas ficavam olhando em volta, mudavam de lugar, sentavam-se perto de casais, não importava a idade. Quando, ao acender as luzes, encontravam as calcinhas e sutiãs, era um murmúrio de frustração.
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Percebeu que aquelas salas começavam a lotar, todo mundo procurando resolver o mistério das calcinhas que surgiam no escuro. Só que, com então, começou a espalhar calcinhas nos banheiros de restaurantes, ônibus, metrô, portas de cursinhos, escadas de emergência dos prédios, elevadores, por toda parte. E foi gerando curiosidade. Gastava seu salário e rejubilava-se porque as rádios e televisões começaram a comentar, os jornais procuravam o casal misterioso que transava por toda parte. Houve até mesa-redonda na TV com a Silvia Poppovic discutindo com bom humor a moralidade vigente.
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E ele coleciona recortes, cola em álbuns. Interrompe a operação por um mês, retoma em local inesperado, o assunto volta à tona. E de sua janela, num apartamento da Praça Roosevelt, ele contempla a cidade que jamais vai decifrar o enigma. E considerando-se um privilegiado, dono de um segredo que intriga a todos, nem sente a dor da solidão em que vive e já se impregnou nele.
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Ignácio de Loyola Brandão
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BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Calcinhas secretas. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 273-276.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Túmulo de rosas - Janaina Ramos

Túmulo de rosas
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– John Waterhouse
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“Ó sono, ó gentil sono,
ama da natureza, que motivo
de espanto em mim descobres, para as pálpebras
não me vires cercar, nem mergulhares
meus sentidos no olvido?
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Shakespeare
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“Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor virtuoso vence
O desejo da morte que me quer.”
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Vinicius de Moraes
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Ó dor que arranca o meu sopro
Ó dor que agoniza o meu cadáver
Ó dor que lateja em meu peito
Que dor é essa que me sufoca?
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A luz da morte na escuridão da vida,
Essa cegueira que brilha na noite
Da estrela sem luz. Dorme a menina
Dos sonhos enterrados e esquecidos.
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O sono é a ruína do tumulo da rosa
Que adormeceu sufocada no espinho
De sua lembrança. Sou um fantasma
Do retrato de um homem sem memória.
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“Helena reina nesse jardim de túmulos, a sua morte foi a minha ruína. O tiro que atravessou em seu peito arrancou o meu coração.” – suspira Wagner deitado entre as rosas no tumulo de sua esposa.
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“Por que choras?” — ressoa uma voz de menina.
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“Que voz é essa que ouço e não vejo de onde vem?” – pergunta Wagner.
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“A voz que ouves vem dentro de ti.” — sussurrou a voz — “Sou o espírito de Helena.”
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Wagner paralisa.
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“Nunca o abandonei, o espírito solitário apossou de seu corpo.” — explica o espírito — “Vim te buscar.”
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Uma nebulosidade transborda o céu inundando o cemitério. Lá no alto ouvem-se o clarim dos fiéis em peregrinação à missa de finados. Num sopro de ventania o espírito de Helena surge diante dos olhos de Wagner.
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— Helena, estarei sonhando? Vejo a sua imagem quando tinha 8 anos.
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— É a imagem das suas lembranças saudosas, a minha aparição foi uma suplica do seu pedido.
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— Apaixonei por ti no instante em que a vi, os seus cabelos em chama, os olhos dos céus, as pétalas brotando, você era uma perfeita rosa em formação e uma bela imagem ao meu quadro. Foi através da minha paixão que instou esse desejo de pintar, há três anos que abandonei essa arte e passo horas intermináveis deitado sobre o seu tumulo de rosas.
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A peregrinação dos fiéis aproxima com o seu cortejo fúnebre, ladainha de padre-nosso e ave-maria, o espírito de Helena tremeu.
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— Wagner, vim te buscar. A cada passo de aproximação dos fiéis é uma perturbação ao meu espírito. Vem comigo.
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Wagner aproxima do espírito, beija seus lábios e sucumbe com o seu amor. O cortejo fúnebre segue no seu cortejo. Ao passar defronte do tumulo de rosas vê-se um cadáver esquelético em cima segurando uma rosa vermelha.
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Janaina Ramos
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(04/11/2009)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Nightwish- Wishmaster

Mila - Carlos Heitor Cony

Mila
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Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
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Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
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Amá-la - foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
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Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu "fumos fidalgos", como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Éra uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
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No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
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Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
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Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.
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Carlos Heitor Cony

sábado, 31 de outubro de 2009

Grande Edgar - Luis Fernando Verissimo

Grande Edgar
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Já deve ter acontecido com você.
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- Não está se lembrando de mim?
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Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no arquivo desativado. Ele está ali, na sua frente, sorrindo, os olhos iluminados, antecipando a sua resposta. Lembra ou não lembra?
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Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
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Um, o curto, grosso e sincero.
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- Não.
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Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O "Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro. Pelo menos não entre pessoas educadas. Você devia ter vergonha. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe bem.
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Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da dissimulação.
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- Não me diga. Você é o... o....
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"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com a sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
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- Desculpe, deve ser a velhice, mas...
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Esse também é um apelo à piedade. Significa "Não torture um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!. É uma maneira simpática de dizer que você não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não se deve à insignificância dele e sim a uma dificiência de neurônios sua.
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E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que leva à terapia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.
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- Claro que estou me lembrando de você!
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Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus quiser. Você ainda arremata.
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- Há quanto tempo!
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Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o desafiará.
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Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco e esperar, falsamente desacordado, que a ambulância venha salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:
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- Pois é.
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Ou:
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- Bota tempo nisso.
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Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem é esse cara, meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio da poeria e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à distância com frases neutras como jabs verbais.
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- Como cê tem passado?
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- Bem, bem.
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- Parece mentira.
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- Puxa.
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(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é esse cara, meu Deus?)
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Ele está falando:
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- Pensei que você não fosse me reconhecer...
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- O que é isso?!
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- Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
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- Eu ia esquecer você? Logo você?
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- As pessoas mudam. Sei lá.
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- Que idéia!
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(É o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica? Você pode chutá-lo, amigavelmente. E chuta uma perna. "Que saudade" e paf. chuta a outra. Quem é esse cara?)
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- É incrivel como a gente perde contato.
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- É mesmo.
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Uma tenntativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser audacioso.
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- Cê tem visto alguém da velha turma?
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- Só o Pontes.
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- Velho Pontes!
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(Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar no sótão. Pontes, Pontes...)
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- Lembra do Croaré?
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- Claro!
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- Esse eu também encontro, às vezes, no tiro al alvo.
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- Velho Croaré!
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(Croaré. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum Croaré e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão ajudando. Você decide esquecer toda a camada e partir para um lance decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o enfarte.)
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- Rezende...
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- Quem?
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- Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.
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- Não tinha um Rezende na turma?
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- Não me lembro.
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- Devo estar confundindo.
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Silêncio. Você sente que está prestes a ser desmascarado.
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Ele fala:
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- Sabe que a Ritinha casou?
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- Não!
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- Casou.
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- Com quem?
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- Acho que você não conheceu. O Bituca.
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Você abandonou todos os escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável, que ele seja total, arrasador. Você está tomado por uma espécie de euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o Bituca?
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- Claro que conheci! Velho Bituca...
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- Pois casaram.
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É a sua chance. É a saída. Você passa ao ataque.
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- E não avisaram nada?!
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- Bem...
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- Não. Espera um pouquinho. Todas essas coisas acontecendo, a Ritinha casando com o Bituca, o Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?!
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- É que a gente perdeu contato e...
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- Mas o meu nome está na lista, meu querido. Era só dar um telefonema. Mandar um convite.
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- É...
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- E você ainda achava que eu não ia reconhecer você. Você é que se esqueceram de mim!
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- Desculpe, Edgar. É que...
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- Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam...
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(Edgar. Ele chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)
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- Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
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- Certo, Edgar. E desculpe, hein?
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- O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
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- Isso.
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- Reunir a velha turma.
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- Certo.
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- E olha, quando falar com a Ritinha e o Mutuca...
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- Bituca.
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- E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
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- Tchau, Edgar!
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Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá correndo.
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Luis Fernando Verissimo

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Um idoso na fila do Detran - Zuenir Ventura

Um idoso na fila do Detran
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"O senhor aqui é idoso", gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal "senhor". Como ninguém protestasse, o policial abriu caminho para que o velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.
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Olhei em volta e procurei com os olhos o velhinho, mas nada. De repente, percebi que o "idoso" que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.
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Até hoje não me refiz do choque, eu já que tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "enta"; dos 50, quando, deprimido, se sente que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.
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Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: "idoso é o senhor seu pai". O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E o guarda paspalhão, por que não criou caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!" Mas que nada, nem um pio.
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O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima - do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço." Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagiria assim: "Mas ninguem lhe dá isso." Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.
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Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas." Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "o senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?"
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- Não, sou gestante - tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "não tenho mais, tenho , 65 anos."
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O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.
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Enquanto espero ser chamado, vou tetando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Aí, se não me falha a memória - e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade -, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, ente companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou então quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro - de ano, meses ou dias -, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.
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Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?" Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.
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Zuenir Ventura
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VENTURA, Zuenir. Um idoso na fila do Detran. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 265-266.

O pastel e a crise - Otto Lara Resende

O pastel e a crise
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Quando a crise convida ao pessimismo ou ameaça descambar na depressão, está na hora de ler. Poesia ou prosa, tanto faz. A partir de certa altura, bom mesmo é reler. Reler sobretudo o que nunca se leu, como repeti outro dia a um amigo que não é chegado à leitura. Ele mergulhou no Proust sem escafandro e se sente mal quando vem à tona e respira o ar poluído aqui de fora.
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Verdadeiro sábio era o Rubem Braga. Tinha com a vida uma relação direta, sem intermediação intelectual. Houvesse o que houvesse, trazia no coração uma medida de equilíbrio que era um dom de nascença, mas era também fruto do aprendizado que só a experiência dá. No pequeno mundo do cotidiano, sabia como ninguém identificar as boas coisas da vida. E assim viveu até o último instante.
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Certa vez, no auge de uma crise, crivada de discursos e de diagnósticos, o Rubem estava de olho nas frutas da estação. Madrugador, cedinho já sabia das coisas. Quando o largo horizonte nacional andava borrascoso, ele se punha a par das nuvens negras, mas não mantinha o olhar fixo no pé-direito alto da crise. Baixava o olhar ao rodapé, pois o sabor do Brasil está também no rés-do-chão. Num dia de greve geral, inquietações no ar, tudo fechado, o Rubem me telefonou: Vamos ao bar Luís, na rua da Carioca? Vamos ver a crise de perto.
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E lá fomos. O bar estava aberto e o chope, esplêndido. Começamos por um preto duplo, que a sede era forte. Depois mais um, agora louro. E outro. Claro que não falou o salsichão com bastante mostarda. Calados, mas vorazes, cumpríamos um rito. Alguém por perto disse que a Vila Militar tinha descido com os tanques. Saímos dali e fomos a um sebo. O Rubem comprou Xanã, do Carlos Lacerda, com dedicatória. Depois pegamos o carro e voltamos pelo Aterro, onde se pode exercer o direito da livre eructação. Tinha sido um perfeito programa cultural. E sem nenhum incentivo do governo.
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Vi agora na televisão que o maracujá está em baixa e me lembrei do velho Braga. Nem tudo está perdido. Fui à feira e comprei também dois suculentos abacaxis. Caem bem nesta hora de atribulação nacional. Só falta agora descobrir um bom pastel de palmito na Zona Norte. Se o Rubem estivesse aí, lá iríamos nós atrás da deleitosa descoberta. Depois, de cabeça erguida, enfrentaríamos a crise e até o caos.
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Otto Lara Resende
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RESENDE, Otto Lara. O pastel e a crise. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 263-264.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Dialogando com o público leitor - João Ubaldo Ribeiro

Dialogando com o público leitor
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- Boa-tarde, o senhor me desculpe eu estar interrompendo sua leitura, mas é só um minutinho.
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- Ah, pois não.
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- É o seguinte, não é o senhor que é o escritor? O menino ali me disse que o senhor é o escritor.
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- Bem, não sei se sou o escritor. Mas sou um escritor, sou, sim.
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- Madalena, venha cá, é ele! Madalena! Chame Rosalvo e os meninos, é ele!
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- O que foi que houve?
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- Madalena é minha esposa, ela estava com vergonha de perguntar se era o senhor mesmo o escritor. Ela me disse que já tinha ouvido muito falar no senhor. E Rosalvo é meu cunhado, que conhece sua obra, é gente boa.
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- Sim, eu...
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- Não vou interromper nada, pode ficar descansado, o senhor pode continuar com sua leitura.
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- Eu...
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- Madalena, é ele mesmo! Você tinha razão, é ele. É boa gente, você sabe? Estamos aqui numa prosa ótima, ele é a simplicidade em pessoa. Olha aí, Rosalvo, é ele. Pode sentar, rapaz, ele não morde, ha-ha!
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- Muito prazer, dá licença.
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- Eu...
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- Meu nome é Rosalvo Luiz da Anunciação Pereira, mas eu costumo assinar apenas Anunciação Pereira.
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- Ah, sim, interessante.
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- Admiro muito sua obra, O sargento de milícias.
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- Mas não fui eu quem escreveu esse, foi outro. Bem que podia ter sido eu, mas não fui eu.
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- Ah, então o senhor não é autor do "Sargento"?
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- Sou, mas de outro sargento, o sargento Getúlio.
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- Ah, mas é claro, que besteira minha. O sargento de milícias é de Lima Duarte, não é?
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- Lima Duarte? O sargento...
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- Sim, Lima Duarte, do Policarpo Quaresma, grande autor, para mim maior do que Machado de Assis.
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- Lima Barreto.
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- Sim, claro, claro, Lima Barreto, eu sempre confundo, Lima Duarte é outro.
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- E que não foi Lima Barreto quem escreveu. Seu Rosalvo.
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- Pelo amor de Deus, nada de formalidades, que é isso de "Seu Rosalvo", os amigos a gente trata pelo nome.
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- Muito obrigado, gentileza sua.
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- Que é isso que você está bebendo aí, posso dar uma cheiradinha? Ah, isso é caju! De hoje que eu não tomo uma batida de caju, vou pedir uma também enquanto a gente conversa, é coisa pouca, não vou tomar seu tempo, eu sei que você é um homem ocupado e precisa ler o jornal para estar por dentro do que acontece, o escritor tem de estar informado.
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- Pois é, eu...
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- Madalena, peça uma batida de caju aí no boteco e traga uns acarajés, uns abarás, uns tira-gostos, umas coisinhas. Quem bebe tem que comer, não é não?
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- É, mas eu, pessoalmente, quando estou bebendo...
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- Não vou tomar seu tempo, vou direto ao assunto. Eu também sou escritor.
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- Ah, que bom, eu...
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- Mas até hoje só publiquei um livro, que eu mesmo custei, um livro de poemas em prosa e mais alguns escritos que eu reuni. Se eu soubesse que ia lhe encontrar aqui, eu lhe trazia um exemplar. Chama-se Retalhos de mim. Não quero ser imodesto, mas muita gente boa... Não sei se você conhece o professor Martinho Lobo, conhece o professor Martinho Lobo?
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- Não, infelizmente não, eu...
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- Não conhece Martinho Lobo, da Academia de Odontólogos Escritores, que foi muitos anos professor de português no Central?
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- Não, infelizmente...
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- Bem, eu vou lhe mandar a cópia de um artigo que Martinho Lobo escreveu na Gazeta de Ipiaú a respeito desse livro meu, você vai ver que comentário interessante, ele foi muito feliz nas observações dele.
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- Sim, mas eu...
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- Ah, chegou o acarajé! O acarajé dessa baiana é uma beleza, é um dos melhores que eu já provei.
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- Eu sei, eu conheço essa baiana desde menino.
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- Ah, sim, claro. Com pimenta ou sem pimenta?
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- Não, obrigado, eu detesto comer quando estou bebendo. Aliás, eu...
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- Abará então? Hum, esse abará...
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- Eu...
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- Vou direto ao assunto, não quero tomar seu tempo. Para onde é que eu posso mandar uns originais que eu queria que você lesse? São 29 peças curtas, que eu prefiro não rotular, são pedaços de minha vida, de minha sensibilidade. Alguns você poderia chamar de contos. Não sei se você conhece aquela frase de Edgard de Andrade que diz que o conto é tudo aquilo que se chama de conto, conhece essa frase?
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- Eu...
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- Pois é, mas eu não quis chamar de contos, preferi não dar nome, chega de rotúlos, de fórmulas, de coisas preestabelecidas, precisamos inovar a literatura, você não acha? Agora, se depois que você ler você achar que eu devo dizer que são contos, você é que sabe, você é que vai fazer o prefácio, não sou eu.
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- Eu vou fazer o prefácio?
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- Eu já tinha dito a Madalena e a Walter Augusto - Walter Augusto é meu cunhado, casado aqui com Madalena: eu vou lá conversar com ele e vou ser logo sincero, vou botar as cartas na mesa. Se eu quero o prefácio, pra que ficar enrolando, é ou não é? Madalena, me dê a caneta aí, para eu tomar nota do endereço dele para mandar os originais. Eu moro aqui na Bahia mesmo, isso chega rápido pelo correio, amanhã mesmo eu mando, deve estar aqui dois ou três dias depeois, quer dizer, dá para esse prefácio estar pronto daqui para o outro domingo. Mas você não precisa ter o trabalho de me mandar o prefácio e me devolver os originais, eu mesmo venho aqui pegar tudo no próximo fim de semana e assim a gente aproveita para bater outro papo, depois que discutir o prefácio.
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- Discutir o prefácio? Eu...
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- Agora está na hora de uma cervejinha. Dê cá seu copo aí, que eu vou mandar lavar, que agora a gente vai numa lourinha estupidamente gelada que eu...
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- Olhe aqui, meu amigo, eu não vou fazer prefácio nenhum, não quero discutir nada com o senhor, não suporto mesa atulhada de caranguejo, folha de banana, farelo de acarajé, resto de vatapá e essa tralha toda aí e, mais do que tudo, não quero nem vou tomar cerveja nenhuma, largue meu copo aí, por favor.
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- Mas minha intenção...
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- O senhor vai me dar licença, eu vou embora.
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- E o endereço?
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- Que endereço, rapaz, eu vou lá lhe dar endereço nenhum?
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- É isso que acontece, Madalena, o sujeito tem um sucessozinho, vira medalhão e aí pisa nos outros! Pode ir, pode ir, eu saberei vencer sozinho! Você já viu que indelicadeza, Madalena, ele age como se tivesse o rei na barriga, não sei o que está pensando que é, ainda se fosse um escritor importante mesmo, agora um cara desses que ninguém sabe quem é...
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João Ubaldo Ribeiro
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RIBEIRO, João Ubaldo. Dialogando com o público leitor. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 257-260.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Zero grau de Libra - Caio Fernando Abreu

Zero grau de Libra
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Sobre todos aqueles que ainda
continuam tentando. Deus,
derrama teu Sol mais luminoso
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O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, ainda distraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
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Neste zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos Deus um olho bom sobre o planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre o mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria hoje o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as vozes vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta como "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete?" - e o outro grunhe em resposta.
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Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
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Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem pelo rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas perfomáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, não gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto - olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida que não a vivem.
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Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos os que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar-certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma - sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
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Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo o dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse do zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.
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Caio Fernando Abreu
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ABREU, Caio Fernando. Zero grau de Libra. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 255-256.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Velhos conhecidos - João Ubaldo Ribeiro

Velhos conhecidos
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Não tive ainda oportunidade de contar a vocês, mas aqui em Lisboa vejo sempre José Carlos Oliveira - Carlinhos Oliveira, meu aplaudido colega de letras. Quase sempre ele está descendo a Avenida dos Estados Unidos e eu vou subindo. Não nos cumprimentamos porque ele parece não me reconhecer e eu compreendo, são coisas de escritores. Vai ver que ele está ali mastigando um livro novo na cabeça e não quer gastar palavras, ainda mais com outro escritor. De forma que, quando o vejo surgir de lá, com seu elegante boné cinza e seu casaco parisiense de fino corte, limito-me a comentar comigo mesmo: "Lá vem o Carlinhos e, pela cara, está escrevendo que está danado." Cruzamos nossos caminhos, nossos olhos se batem, ele chega a parecer que vai falar, mas terminamos por, sensatamente, manter a situação. Ele sabe quem sou eu e eu sei quem é ele, mas no momento estamos vivendo um misterioso evento literário, com o qual não se pode interferir irresponsavelmente.
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Não me refiro aos dias em que Carlinhos, segundo me contam, pois ele nem me telefonou, esteve abertamente em Lisboa. Nesses dias em que, segundo ainda me contam, ele perambulou pelas ruas da cidade procurando inutilmente comer um pastel numa pastelaria, até que nem o vi aqui na Estados Unidos. Claro, pois se ele estava procurando o pastel. Aliás, bemfeito não achar: se me tivesse procurado, eu não só teria achado o pastel, como teria indicado umas chamuças inesquecíveis. Não, não me refiro a essa estada dos pastéis. Refiro-me a uma presença quase cotidiana, um rápido encontro quase diário. Tenho absoluta certeza e não adianta negar. Todo mundo sabe que essas coisas acontecem.
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Por exemplo, uma vez que eu estava em Cuba e, saindo de um elevador em companhia do também aplaudidíssimo Gianfrascesco Guarnieri (e ele também está aí para não me deixar mentir; não me deixe mentir Guarnieri), vi Karl Marx na ponta do cabaré do Hotel Riveira. Não me assustei muito, creio que achei natural Marx estar ali, espairecendo em Cuba, disposto a tomar uns mojitos e apreciar um ou dois pares de pernas socialistas. Como nos retratos, não parecia cuidar muito do cabelo e da barba, meio desgrenhados. Mas usava um elegante colete sob o paletó cinza-claro e aparentava estar muito bem disposto.
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- Nós já bebemos hoje? - perguntei discretamente a Guarnieri.
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- Se é por causa do Marx ali, eu também já vi - disse Guarnieri, que sempre se recusa a dar uma resposta direta à pergunta "você já bebeu hoje".
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Ficamos olhando para ele de longe. Guarnieri ainda chegou a sugerir sem muito entusiasmo que fôssemos lá fazer uma entrevista com ele. Mas depois achamos que, se fôssemos nós que estivéssemos ali, de colete e olho aceso, na porta do cabaré, não iríamos gostar da idéia de dar entrevista a um par de chatos aparecido de repente. Além disso, concluímos, enquanto Marx ajeitava o paletó e adentrava o cabaré para não mais ser visto, ninguém ia acreditar mesmo. Coisa, comprovada imediatamente, no próprio círculo familiar. Pois, assim que Marx sumiu, Vânia, mulher de Guarnieri, chegou ao saguão do hotel.
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- Nós vimos Marx ali, agorinha mesmo! - anunciou Guarnieri. - De colete, ali, na porta do cabaré! Foi ou não foi?
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- Foi - garanti. - Ele é um pouco mais alto do que eu pensava.
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- Vocês já beberam hoje? - disse ela, olhando para a gente de cima a baixo.
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É verdade que nós já tínhamos bebido, sim, mas somente um bocadinho (a gente sempre bebia somente um bocadinho) e, além disso, trata-se de um pormenor irrelevante, porque não só raramente estou bebendo quando vejo Carlinhos de Oliveira aqui em Lisboa (e ele não bebe mais, de maneira que pode dar um depoimento insuspeito, a não ser que continue a desejar permanecer incógnito e comportar-se estranhamente), como também não costumo estar bebendo quando vejo Joel Silveira na esquina da Avenida de Roma, conversando com alguns outros cavalheiros corpulentos.
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Joel só apareceu de uns meses para cá. Não é como Carlinhos, que está aqui praticamente desde que eu cheguei. Em compensação, é de uma regularidade muito grande. Toda quinta-feira, por volta das cinco horas da tarde, ele pode ser visto à porta da tabacaria onde joga na totobola, esperando os amigos não só para debater suas apostas esportivas, como para ficar bebericando e brandindo jornais inflamadamente. Nós nos cumprimentamos, embora não com a efusão que seria de esperar-se, dadas as nossas ligações sergipenses. Aliás, talvez sejam essas mesmas raízes sergipenses as responsáveis por nunca havermos adiantado papo além de um cerimonioso "como passou?". É que o nordestino é desconfiado por natureza: eu não sei o que Joel está fazendo aqui, ainda mais jogando tanto no totobola, ele não sabe o que eu estou fazendo aqui. É tudo altamente suspeito, de maneira que ele vai fingindo que não nota nada e eu vou fingindo que não noto nada. Quando voltar ao Rio, esclareço esse assunto pessoalmente com ele (e exigirei uma porcentagem, a depender; não sei se a mulher dele sabe que toda quinta-feira ele fica por aqui enchendo a cara).
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Assim, não estranho que, nas viagens de metrô que faço às segundas-feiras para levar à Varig o malote contendo estas mal traçadas, frequentemente encontre, sentado num banco lateral e lendo gravemente um exemplar de A Capital, o poeta Ledo Ivo. Muito composto, o poeta raramente levanta os olhos de seu jornal. Quando o comboio pára à estação de Socorro, ele dobra o jornal com meticulosidade, retira os óculos do nariz para colocá-los no bolsinho do paletó, levanta-se e desce no Rossio pela saída da Praça da Figueira, de cabeça empinada e sem olhar para trás, passo rápido e jornal ao sovaco. A esse não ouso falar - não temos intimidade e ele não parece desejar perguntar que interfiram com sua apressada missão das segundas-feiras à Praça da Figueira ou adjacências.
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Resta deter-me algum tempo na plataforma do metrô, acompanhando a subida ágil do poeta pelas escadas acima. Divago um pouco apesar da multidão em torno, mas sou trazido de volta à realidade pelo barulho das portas do comboio se fechando. Na cabine à frente, diante de seus comandos, um motorneiro de olhos um pouco esbugalhados, bigode mefistofélico e cabelo caído na testa, põe a cabeça para fora com impaciência, para ver se está tudo em ordem lá atrás. Quando vira a cabeça de volta, seu olhar passa na minha direção e imediatamente reconheço, naquele expressão vilanesca e na voz irritada em que saíam suas imprecações, José Lewgoy! Estremeci, mas ainda consegui falar.
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- Zé! - gritei, levantando a mão.
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Mas se ele limitou a me olhar rapidamente e com frieza, bateu a porta, meteu a mão nos controles e desapareceu pilotando o trem pelo túnel adentro. Há uma conspiração em andamento, estou seguro.
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João Ubaldo Ribeiro
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RIBEIRO, João Ubaldo. Velhos conhecidos. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 252-254.